Luciano de Vries Deixa Para Trás o Negócio Que Construiu em Espanha
Luciano de Vries Deixa Para Trás o Negócio Que Construiu em Espanha

Luciano de Vries Deixa Para Trás o Negócio Que Construiu em Espanha

Luciano de Vries passou mais de meia década a vender bilhetes de eventos na Costa Brava antes de fundar fosse o que fosse com o próprio nome. Décadas depois, gere um portefólio que já não cabe num único sector, e a maior parte do dinheiro que esse portefólio gera não fica parada. Segue direto para outro projecto.

O padrão não é exclusivo de de Vries. Segundo dados compilados pela CoinLaw, cerca de 75% dos investidores anjo activos reinvestem os retornos que obtêm em novas startups, em vez de deixar esse capital parado numa conta. É um comportamento comum entre quem já construiu riqueza através de um negócio maduro: o dinheiro raramente descansa, apenas muda de forma. De Vries, hoje radicado em Tavira, é um exemplo relativamente claro desse comportamento, porque a mudança na sua vida profissional aconteceu em duas frentes visíveis e bem documentadas, o imobiliário português e o investimento em startups em fase inicial.

O dinheiro que esse negócio gerou continua, décadas depois, a circular para novos projectos em vez de simplesmente acumular. É esse fluxo contínuo, mais do que a saída de Espanha em si, que define a segunda metade da carreira de de Vries.

Sete Anos a Vender Bilhetes na Costa Brava

De Vries tinha pouco mais de vinte anos quando trocou os corredores da Universidade de Groningen, onde estudava direito fiscal, por um trabalho de verão em Espanha. “Foi então que percebi o que significava ganhar o meu próprio dinheiro. Descobri que, quanto mais me esforçava para convidar pessoas, mais dinheiro conseguia fazer”, recordou sobre os anos em que vendia bilhetes para eventos na Costa Brava, pago à comissão em vez de salário fixo.

A diferença entre um ordenado fixo e uma comissão por resultado marcou-o. O patrão que o contratou impôs uma condição pouco habitual para um trabalho de verão: de Vries tinha de ler dois livros de gestão por mês e entregar resumos escritos sobre cada um. Era, nas suas próprias palavras, uma espécie de escola de negócios informal que corria em paralelo aos estudos de direito fiscal. Essa disciplina de leitura ficou com ele muito depois de deixar o emprego, e continua a recomendar livros à sua equipa até hoje.

O trabalho durou mais de meia década, tempo suficiente para que de Vries aprendesse o negócio de dentro para fora antes de decidir criar algo próprio. Não há registo público de uma data exacta de saída, nem de um comprador, nem de um preço de venda. O que existe, e está bem documentado, é o que aconteceu depois: de Vries usou essa experiência como base para montar uma estrutura empresarial que, com o tempo, cresceu de uma equipa reduzida para uma organização com presença em vários países europeus.

O Ponto em Que Já Não Conseguia Fazer Tudo Sozinho

A maioria dos fundadores chega a um momento em que continuar a fazer tudo pessoalmente deixa de ser possível. Um estudo recente da revista Entrepreneur, citando dados da Gallup, mostra que 75% dos empresários têm dificuldade em delegar, enquanto aqueles que conseguem delegar registam mais de 100 pontos percentuais de crescimento adicional face aos que não o fazem. De Vries reconhece que também sentiu essa resistência. “Por vezes, faço microgestão a mais. Fico agarrado às coisas antigas durante demasiado tempo, mais do que deveria”, admitiu sobre os seus próprios hábitos de gestão.

A saída dessa fase custou-lhe tempo, mas acabou por acontecer. Contratou um director-geral, montou uma equipa financeira sedeada em Malta e reduziu a sua presença física a visitas mensais às operações em Portugal, Malta e Polónia, além dos Países Baixos, onde a empresa também mantém actividade. “Uma das minhas regras é largar essas responsabilidades mais cedo, entregá-las às pessoas certas, deixá-las aprender, deixá-las assumi-las”, explicou sobre a decisão de recuar da gestão directa.

Escolher quem assume essas responsabilidades exigiu um critério que contraria a sabedoria convencional de recrutamento. “Recebi currículos fantásticos de pessoas que trabalharam vinte anos na mesma função que eu procurava, ou que estudaram exactamente aquilo que eu procurava. Mas descobri que, muitas vezes, isso não é o ajuste perfeito”, disse sobre a escolha dos directores que hoje gerem o dia a dia das suas empresas. Prefere, segundo o próprio, alguém disposto a aprender depressa a alguém já especializado mas rígido.

Essa decisão de delegar tem uma consequência financeira directa. Uma empresa gerida por profissionais contratados continua a gerar lucro sem exigir a presença constante do fundador. Esse lucro precisa de um destino. Para de Vries, esse destino tornou-se o imobiliário português e o investimento em startups.

O Dinheiro Vai Parar no Tijolo do Algarve

O Algarve tem vindo a atrair capital estrangeiro a um ritmo que os números confirmam. Segundo dados do INE compilados pelo Global Property Guide, o valor médio de avaliação bancária dos apartamentos na região atingiu 1.548 euros por metro quadrado, um aumento de 21,99% num único ano. Parte dessa procura já não vem, ao contrário do que se poderia assumir, do próprio Golden Visa. Portugal encerrou a via de investimento directo em imobiliário através da lei “Mais Habitação”, em Outubro de 2023, e os investidores estrangeiros que ainda escolhem este caminho fazem-no sobretudo através de fundos, não da compra directa de casas. Ainda assim, os cidadãos dos Estados Unidos tornaram-se, em 2025, a nacionalidade mais representada entre os novos investidores do programa, segundo a mesma fonte, e vários desses compradores acabam por procurar casa no país por outras vias, sobretudo em dinheiro.

De Vries já tinha uma teoria sobre o motivo desse interesse antes de qualquer relatório o confirmar. “Muitos americanos vêm por causa dos campos de golfe. Jogar aqui é muito mais barato do que nos Estados Unidos, a comida é mais barata e o tempo está muito melhor”, disse numa entrevista sobre o apelo da região. Através da Casa Vista Real Estate, co-lidera actualmente projectos residenciais no Algarve, uma aposta que, segundo o próprio, ainda oferece custos de construção e de terreno inferiores aos de Espanha ou de Itália.

O imobiliário resolve um problema específico para quem já não trabalha sessenta horas por semana num único negócio: absorve capital em quantidades grandes, produz retorno relativamente previsível, e não exige decisões diárias. É a metade mais conservadora da equação de de Vries. A outra metade é bem mais arriscada, e também bem mais lenta a revelar se funcionou.

Apostar em Empresas Que Ainda Não Existem

“Estamos a investir cada vez mais em startups, sendo como um investidor anjo. É algo que nos interessa”, afirmou de Vries sobre essa segunda frente. Ao contrário do imobiliário, onde o valor de um edifício é mais ou menos visível desde o início, uma startup em fase inicial pode não valer nada dentro de três anos, ou pode multiplicar o capital investido dezenas de vezes. De Vries parece confortável com essa incerteza, mas não a ignora. “É sempre um risco investir nos outros. Mas sim, com os investimentos, esperamos recuperar algum dinheiro em três, quatro anos”, disse sobre o horizonte temporal que aplica às apostas em empresas nascentes.

Os números da CoinLaw ajudam a explicar porque esse horizonte de três a quatro anos é razoável, e também porque é arriscado. Segundo o mesmo levantamento, apenas entre 5% e 10% das apostas em startups geram retornos entre cinco e 30 vezes o capital investido, enquanto entre 50% e 70% dos investimentos acabam por devolver menos do que o valor original aplicado. Nos Estados Unidos, onde a CoinLaw identifica mais de 300 mil investidores anjo activos, esta é a matemática que qualquer investidor anjo enfrenta: a maioria das apostas falha, e uma minoria pequena paga por todas as outras.

A forma como de Vries encontra essas apostas também o distingue de uma parte do mercado. Cerca de 40% do capital anjo nos Estados Unidos já passa por sindicatos e veículos de investimento colectivo, quase o triplo da proporção de há cinco anos, segundo a mesma CoinLaw. De Vries continua a operar de forma mais próxima do modelo antigo, informal, apoiado na rede pessoal em vez de estruturas colectivas. “Alguns são mais velhos, alguns são mais novos, mas principalmente os mais velhos, fazem investimentos há dez, quinze anos. Conversa-se sobre isso, bebe-se uma cerveja numa festa, e vê-se quais são as boas oportunidades”, descreveu sobre a forma como costuma encontrar novos projectos para financiar.

Uma das áreas onde de Vries tem colocado dinheiro recentemente é a fintech. “Estou a fazer cada vez mais investimentos em fintech, porque a tecnologia blockchain e cripto associada a isso parece-me muito interessante”, disse sobre uma das frentes mais recentes do seu investimento anjo. É uma escolha consistente com o resto da sua carteira: sectores onde a tecnologia está a mudar rapidamente quem consegue competir, e onde entrar cedo custa menos do que entrar tarde.

O mesmo cuidado analítico aparece quando de Vries assume o controlo de uma empresa já existente. Nos primeiros três meses depois de qualquer aquisição, segue sempre o mesmo processo: conversas com distribuidores, clientes e fornecedores para perceber onde a relação flui bem e onde há atrito. “A certa altura, ganha-se a sensação de onde as coisas estão a correr bem e onde estão a correr mal”, explicou sobre esse período inicial de avaliação. Mudanças drásticas de rumo logo a seguir a uma aquisição são evitadas de propósito. “Não se pode virar 180 graus de um dia para o outro, mas vai-se mudando de rumo aos poucos”, descreveu sobre a sua abordagem a negócios recém-adquiridos, uma cautela que aplicou, por exemplo, à fabricante de saunas e banheiras de madeira Happy Timber Solutions antes de alterar fosse o que fosse na operação existente.

De Vries também liga o investimento anjo à restante filosofia financeira. “Nunca pedimos um empréstimo. Por isso, somos completamente independentes”, disse sobre a decisão de financiar o crescimento das suas empresas sem recorrer a dívida bancária. A mesma lógica aplica-se ao dinheiro que já ganhou: em vez de o deixar parado, prefere colocá-lo a trabalhar noutro lado, mesmo que isso signifique aceitar que a maioria das apostas em startups não vai correr bem.

Um Padrão Mais Amplo do Que Parece

Há uma versão simplificada desta história que diria apenas que de Vries trocou um negócio por outro. A versão mais precisa é que ele fez duas apostas distintas com o capital libertado por mais de meia década de trabalho num sector completamente diferente: uma mais lenta e mais previsível no imobiliário algarvio, outra mais rápida a falhar e mais lenta a compensar no investimento anjo. Nenhuma das duas depende da sua presença diária, o que só se tornou possível depois de contratar as pessoas certas para gerir o que ele próprio geria antes sozinho.

O negócio de vender bilhetes na Costa Brava também não desapareceu de forma limpa e definitiva. Evoluiu para uma estrutura profissionalizada que continua a funcionar sem ele estar presente todos os dias, e é essa continuidade, mais do que uma saída dramática, que libertou o capital e o tempo que hoje sustentam as duas frentes seguintes da sua carreira. De Vries já afirmou que pretende continuar a investir em imobiliário e em startups pelas próximas duas décadas, de preferência a partir de um clima ameno como o do sul de Portugal. É o plano de alguém que decidiu, há alguns anos, o que fazer ao dinheiro que entra, e que continua a aplicá-lo mesmo depois de ter trocado de sector, de país e de forma de trabalhar.