Metade da energia consumida nas fábricas da Eucatex vem hoje de fontes renováveis. Chegar a esse patamar exigiu um investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho — a maior usina solar do estado de São Paulo — e uma mudança de postura em relação à matriz energética da empresa que vem sendo construída ao longo de anos.
A decisão de contratar energia solar em escala industrial não foi uma resposta a uma tendência de mercado nem a uma pressão de acionistas. Ela reflete uma lógica de gestão que Flávio Maluf consolidou desde que assumiu a presidência da Eucatex, em 1997: vincular eficiência operacional a responsabilidade ambiental, tratando os dois objetivos não como escolhas excludentes, mas como partes da mesma equação de negócio.
A Usina Solar Castilho
A Usina Solar Castilho fica no município de Castilho, no interior de São Paulo. Com capacidade instalada que a coloca no topo do ranking de geração solar do estado, a usina abastece as operações da Eucatex por meio de um contrato de fornecimento de longo prazo com a Comerc Renew, empresa responsável pela operação e transmissão da energia gerada.
O modelo — energia solar contratada em longo prazo, operada por um parceiro especializado — permite à Eucatex acessar geração limpa em escala sem assumir os riscos operacionais de gestão direta de uma usina dessa dimensão. É um arranjo que exige negociação de contrato complexo e capacidade de comprometer receita futura em uma aposta de longo prazo. A empresa assinou esse compromisso porque o cálculo de retorno sustentava a decisão.
A energia da usina abastece as unidades industriais em Salto e Botucatu, no interior paulista, e complementa o abastecimento da planta de Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.
Por que energia renovável é vantagem comercial
A redução da dependência de energia convencional tem efeitos diretos na operação da Eucatex que vão além da conta de luz.
O primeiro efeito é de previsibilidade. A tarifa de energia elétrica no Brasil responde a variáveis como nível dos reservatórios, oferta no sistema interligado nacional e decisões regulatórias. Uma empresa que substitui parte relevante desse consumo por energia contratada em longo prazo reduz sua exposição a oscilações que estão fora do controle da gestão.
O segundo efeito é comercial. Clientes nos mercados americano e europeu — que representam a maior parte das exportações da Eucatex — exigem cada vez mais informações sobre a pegada de carbono dos produtos que compram. Uma empresa que processa madeira com certificação FSC e gera 50% de sua energia a partir de fontes renováveis tem argumentos concretos para posicionar seu produto em segmentos de maior valor agregado. Essa diferenciação não se improvisa: ela precisa de infraestrutura real por trás.
Flávio Maluf articulou essa lógica em diferentes momentos ao longo de sua gestão. A vantagem não está em declarar comprometimento com sustentabilidade — está em construir operações que tornam essa declaração verificável. A usina em Castilho é o tipo de investimento que transforma uma posição ambiental em um dado auditável.
Biomassa: a segunda fonte renovável
A energia solar é apenas uma das fontes renováveis na matriz da Eucatex. A empresa também gera energia a partir de biomassa, produzida com resíduos de madeira coletados junto a mais de 300 parceiros do programa de reciclagem. Paletes, caixarias, pontaletes e pedaceira que seriam descartados se transformam em combustível para as caldeiras industriais.
A combinação de energia solar e biomassa cobre metade do consumo das fábricas. O modelo de dupla fonte renovável tem uma vantagem operacional relevante: não concentra a dependência em um único tipo de geração. A geração solar varia com as condições climáticas e com o ciclo de luz do dia. A biomassa opera de forma contínua, independente das condições atmosféricas. As duas fontes se complementam na cobertura das necessidades industriais da empresa.
O programa de reciclagem de madeira também cresce à medida que a Eucatex amplia sua rede de parceiros. O plano de expansão florestal previsto para 2026 deve aumentar o volume de resíduos disponíveis para aproveitamento energético conforme os ciclos de colheita e processamento avançam.
O capex 2026 e a continuidade do ciclo de investimentos
O plano de investimentos da Eucatex para 2026 prevê aproximadamente R$ 500 milhões. As prioridades incluem expansão florestal, modernização industrial das unidades de produção e, potencialmente, aquisições no Brasil ou em mercados vizinhos como a Argentina.
A Eucatex encerrou 2025 com receita líquida de R$ 3,1 bilhões e lucro líquido recorrente 54,7% acima do registrado em 2024. Com margens em expansão e um ciclo de investimentos planejado, a empresa tem capacidade financeira para continuar ampliando sua infraestrutura de energia renovável.
O investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho foi um passo em uma trajetória mais longa. Não encerra a agenda energética da Eucatex — ele cria a base sobre a qual novos passos podem ser dados.
Uma escolha que não envelhece
Investimentos em energia renovável têm uma característica que poucos investimentos industriais têm: eles tendem a parecer mais acertados com o tempo. À medida que a pressão regulatória aumenta nos mercados importadores e os requisitos de rastreabilidade de carbono se tornam padrão em cadeias de suprimentos globais, as empresas que já têm sua matriz energética parcialmente descarbonizada partem de um ponto mais favorável.
Sob a gestão de Flávio Maluf, a Eucatex não esperou as regras chegarem para se adaptar. O investimento na Usina Solar Castilho aconteceu antes de qualquer obrigatoriedade — e é exatamente por isso que ele representa uma vantagem competitiva, não apenas uma conformidade.